É o Homem quem cria os objectos, pensando em formas de aumentar a capacidade do seu corpo, de modo a poder vencer a Natureza. Esta é, realmente, a primeira necessidade de criação de objectos; domínio sobre a entidade com o poderio maior – Natureza. Esta tentativa de domínio surge com a vontade de viver, de tentar subsistir no meio adverso segundo condições que não se compreendem e perante as quais há um sentimento de impotência. A fome e o abrigo são os primeiros motores para o desenvolvimento de objectos.
Actualmente, para muitos dos membros da sociedade onde vivemos, essas necessidades são diferentes, não na forma, mas no modo como se dão; o caminho da evolução faz-se por uma estrada que nos afastada da longínqua época em que tínhamos instinto. Se a necessidade pura aliada ao instinto era o ponto de partida para a criação de objectos, hoje é o conforto e a busca do prazer que obriga à constante concepção de artefactos.
O parque de objectos que nos rodeia cresce exponencialmente, assim como o desprendimento relacional que as pessoas têm para com eles: é uma relação inversamente proporcional. Esta virtualização ocorre ao nível da relação pessoa-artefacto, material-artefacto, artefacto-função.
O conforto procurado nos artefactos é cada vez mais psicológico. Compra-se pelo prazer de possuir algo, possuir funções, status, ter controlo sobre um determinado objecto ou, através do objecto, sobre pessoas. As mensagens publicitárias, presentes em todo o lado, desde o logótipo presente no biberão ao design do serviço fúnebre, são entranhadas na vivência tal como o ar que se respira. Elas educam, moldam e definem características comportamentais que vão de encontro ao interesse de consumo constante e ao longo da vida.
Compra-se pela busca de conforto psicológico no objecto; pela necessidade de preencher um vazio enraizado pela publicidade. Fora de qualquer avaliação qualitativa em relação a esse facto, como se dá tal acontecimento? Por que razão eu sinto a necessidade de beber um refrigerante da marca X, quando tenho sede? Ou porque compro um leitor de mp4 quando pretendo apenas ouvir música?
A primeira questão, da escolha do refrigerante, dá-se pela eficiência simbólica da mensagem publicitária, que através da conjugação de cores, planos, cenários cria uma situação em torno de um hábito que tenho ou poderia ter, no qual eu me revejo ou gostaria de ver envolvido, e desperta a minha atenção. O despertar da atenção é o primeiro ponto de comunicação entre o objecto e eu. O próximo será a persistência da mensagem – daí que se utilizem referências a um possível cenário quotidiano – e o facto de ela ser despertada quando eu estiver em contacto com o objecto.
A questão do mp4, liga-se a uma eficiência muito maior do que a simples identificação com o objecto. Neste caso o objecto tem de me oferecer um passaporte para uma realidade apetecível. Se no primeiro caso a necessidade psicológica dá-se ao nível da escolha entre comer um carne ou peixe, neste caso trata-se de um doce; da cereja no topo do bolo. A venda de um produto que tem caracteristicas que me obrigam a uma aprendizagem tem de ter força para mudar o meu comportamento. Nesse caso a mensagem publicitaria terá mais força quanto melhor servir o meu ideal de vida. Tem que conhecer as minhas aspirações.
A virtualização material-artefacto ocorre em casos em que as empresas utilizam um material indiferenciado para se restringirem a um orçamento ou quando as pessoas escolhem objectos sem pensar na experiência sensível para com ele. Esta última situação ocorre devido ao processo de escolha ser muitas vezes virtual, feito pela Internet, por catálogo, ou quando feita no local estar imbuída de tanto ruído que a experiência sensível é menos expressiva.
Pela diminuição da experiência física com o objecto, a partir do momento da escolha, pode-se compreender a virtualização pessoa-artefacto e a diminuição da experiência táctil e material. Consequências de época do écran...
3 de out. de 2007
Virtualização de Artefactos
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