3 de dez. de 2008

Eu, Sofá.

Sou azul, meço 1,59m de largura, acolchoado, desdobrável. Dois braços, quatro pés. Sou um assento normal, arraçado de sofá. Os mais preconceituosos chamam-me divã. Mas eu prefiro sofá. Estou vestido de verde há algum tempo e não me lembro da última vez que me deixaram com a roupa a que vim ao mundo para lavar a túnica. Estas duas parasitas moles e metamorforseantes estão sempre por aqui e não sei bem para que servem, para além de ocuparem o meu melhor espaço.
A minha existência é monótona na maior parte do dia, especado a olhar para uma estante da qual já conheço todos os objectos de cor, sendo a única novidade a quantidade de pó que a antiga árvore consegue acumular. Pois, seria imperdoável não referir a TV, a companheira do cara-a-cara, a irmã inseparável, a outra desta dupla pá.” Ó Crown Japan, como és quadrada!” O problema da coitada é entrar em convulsões cromático-luminosas todas as noites, que só interessam ao espécime que me cai em cima para estar em frente a elas. Deve ser terapia.
Nem sempre; há vezes que a minha capacidade de ventre - apesar de ser masculino mas enfim, é o meu lado feminino – serve apenas para o sentar a saborear um bom vinho, um lanche, uma conversa, um livro ou um desenho; ou para o servir como leito para um descanso, a apreciar uma boa música; ou simplesmente para ouvi-lo dialogar com a lenta passagem das horas.

Omnipresença Perturbante

Telefone móvel: objecto portátil sem fio que permite ao utilizador um aumento do seu raio de acção independente de fio ou ponto de rede fixa. Para além da oralidade, o envio de mensagens escritas são um modo de comunicação a baixo preço para… sim, é cómodo e toda a gente usa por motivos de necessidade laboral, comunicação, status, conveniência, inserção / aceitação no grupo, etc.

Mas tem de ser em todo o lado e a toda a hora?

Nunca mais poderei ver um filme no cinema e a única fonte de luz ser proveniente do ecrã?

Será impossível andar de transporte público sem ouvir músicas idiotas a decibéis que invadem o meu direito à tranquilidade? Talvez sim, talvez não…

Portanto é dado adquirido que a esfera do normal, do socialmente aceite, do comportamento cívico seja alargado a: interromper um funeral com um tok; ku prtges krreto sja skrito kestas ltrax; que eu tenha de andar no passeio a desviar-me de 2 megapixeis incorporados apontados na direcção onde eu não deveria ter passado à frente de… (pensar que tanta reticência gasta caracteres inutilmente e encarece o sms)

Não sou fundamentalista nem averso a produtos tecnológicos. Contudo, cada vez mais a passividade em relação à invasão daqueles em detrimento da completa experiencia do ritual faz-me pensar.

(Recebi um sms, perdi a concentração e a vontade de escrever. Deveria ter desligado o telemóvel. Tenho de repensar os meus hábitos. É o que vou fazer.AGORA!)